O vício em apostas já afeta quase 11 milhões de brasileiros, segundo o
maior levantamento nacional sobre o tema, realizado pela UNIFESP em 2025. Não é exagero
chamar de epidemia: o país é hoje o terceiro do mundo que mais aposta em bets esportivas,
e os impactos, financeiros, familiares e psicológicos , chegam todos os dias aos
consultórios, aos CAPS e às famílias que não sabem mais o que fazer.
Se você está lendo este artigo, provavelmente reconhece esse cenário de perto. Talvez
seja você mesmo que perdeu o controle. Talvez seja alguém que você ama. De qualquer forma,
você está no lugar certo: aqui você vai entender como o vício em apostas funciona
no cérebro, quais são os sinais de alerta, como abordar quem está preso nesse
ciclo e, principalmente, quais são os tratamentos que realmente funcionam , com respaldo
científico e fontes nacionais verificadas.
1. A epidemia silenciosa no Brasil
O Brasil atravessa um momento inédito em sua relação com as apostas. Desde a regulamentação das apostas esportivas de cota fixa em 2018 e especialmente após 2023, quando plataformas passaram a operar amplamente via celular, o país saltou para a posição de terceiro maior mercado de apostas esportivas do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Segundo o secretário-executivo do Banco Central, Rogério Lucca, os apostadores brasileiros gastaram até R$ 30 bilhões por mês em bets entre janeiro e março de 2025. Uma pesquisa do Datafolha de 2024 apontou que mais de 32 milhões de brasileiros já apostaram em plataformas digitais, com 62% dos mais afetados sendo jovens e trabalhadores das classes C, D e E.
O impacto social é visível: em agosto de 2024, dados do Banco Central revelaram que aproximadamente R$ 3 bilhões dos R$ 14,1 bilhões pagos pelo Bolsa Família foram direcionados a apostas naquele mês , um sinal de alerta sobre o empobrecimento de famílias já vulneráveis.
O Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), coordenado pelo psiquiatra Ronaldo Laranjeira e realizado pela UNIFESP com uma amostra de 16.608 brasileiros, estimou que quase 11 milhões de brasileiros apostam de forma que coloca saúde e finanças em risco. O estudo revelou ainda que sites de apostas são acessados por 81,4% dos menores que jogam (Pesquisa FAPESP, 2025).
No Hospital das Clínicas da USP, o Programa Ambulatorial do Jogo (Pro-Amjo), coordenado pelo psiquiatra Hermano Tavares, registrou um aumento de três vezes no número de atendimentos desde 2023. O Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu, em 2025, que a ludopatia já é reconhecida como desafio de saúde pública pelo Ministério da Saúde, mas que faltam profissionais especializados e campanhas eficazes de prevenção (TCU, 2025).
Um levantamento publicado na The Lancet analisou dados de 68 países entre 2010 e 2024 e constatou que 46% dos adultos e 18% dos adolescentes realizaram algum tipo de aposta nesse período. Um estudo norueguês publicado na mesma revista, em março de 2025, identificou o suicídio como a principal causa de morte entre pessoas com transtornos relacionados ao jogo , dado que evidencia a gravidade clínica do problema (CUT Brasil, 2025).
O vício em jogos já é a terceira dependência mais frequente no Brasil, atrás apenas do álcool e do tabaco, segundo a Associação Psiquiátrica de Brasília (APBr).
2. Como funciona a mente de um viciado em apostas
Para entender por que uma pessoa não consegue simplesmente “parar de apostar”, é preciso entender o que acontece dentro do cérebro. O transtorno do jogo não é falta de força de vontade. É uma alteração neurológica real e clinicamente reconhecida no sistema de recompensa cerebral.
O sistema de recompensa e a dopamina
Quando uma pessoa aposta, o córtex pré-frontal e o sistema límbico , regiões responsáveis pelo prazer, motivação e tomada de decisões — são intensamente ativados. O cérebro libera dopamina, o neurotransmissor associado à recompensa. A sensação resultante é de euforia, excitação e satisfação intensa.
O que torna as apostas especialmente perigosas é o fenômeno da recompensa variável: a liberação de dopamina é maior quando o resultado é imprevisível do que quando é certo. Em outras palavras, a possibilidade de ganhar é neurologicamente mais estimulante do que a vitória em si. Esse mecanismo é o mesmo explorado em caça-níqueis e em plataformas digitais projetadas para maximizar o engajamento (Editora Manole / Neurociência, 2025).
Estudos de neuroimagem mostram que as áreas cerebrais ativadas durante o jogo patológico são as mesmas ativadas em dependentes de cocaína ou álcool ao usar essas substâncias. Para o cérebro, o vício em apostas é tão real e fisiologicamente intenso quanto uma dependência química (Universidade de Cambridge).
A tolerância e o ciclo vicioso
Com o tempo, o cérebro se adapta. Para sentir o mesmo nível de prazer, o apostador precisa de apostas mais frequentes e de valores maiores, exatamente como ocorre com drogas. É o fenômeno da tolerância. Quando perde, o cérebro não interpreta isso como sinal de parar: aciona a busca compulsiva por recuperar o que foi perdido, o chamado “chasing losses” (perseguição de perdas).
As distorções cognitivas que alimentam o vício
A esse mecanismo neurológico somam-se distorções cognitivas identificadas pela psicologia comportamental:
- Falácia do apostador: a crença de que, após várias derrotas, a próxima aposta tem maior probabilidade de vencer , o que é matematicamente falso.
- Ilusão de controle: a convicção de que habilidade ou estratégia influencia resultados puramente aleatórios.
- Efeito “quase acerto”: quando o resultado quase foi o esperado, o cérebro libera dopamina como se fosse vitória, reforçando o comportamento de continuar apostando.
- Pensamento mágico: rituais, superstições e crenças sobre “dia de sorte” que justificam a continuidade do jogo.
Uma pesquisa publicada no Brazilian Journal of Health Review (2026) destaca que o vício em apostas envolve não apenas a dimensão neurológica, mas também uma busca por sentido, identidade e pertencimento — o que explica por que grupos de apoio têm papel complementar essencial no tratamento (Brazilian Journal of Health Review, 2026).
3. Sinais de que o jogo virou vício
O transtorno do jogo é classificado sob o código F63.0 (CID-10) e 6C50 (CID-11) pela OMS. O que define o transtorno não é a frequência das apostas, mas a perda de controle sobre o comportamento, mesmo diante de consequências negativas evidentes. Os principais sinais de alerta são:
- Preocupação constante: pensar em apostas na maior parte do tempo, planejar a próxima jogada ou reviver apostas anteriores mentalmente.
- Necessidade de apostar mais: aumentar progressivamente os valores para obter a mesma emoção (tolerância).
- Tentativas fracassadas de parar: esforços repetidos e sem sucesso de controlar, reduzir ou abandonar as apostas.
- Irritabilidade na abstinência: ansiedade, agitação ou irritabilidade ao tentar reduzir ou parar de jogar.
- Fuga de problemas: usar as apostas para lidar com sentimentos de impotência, culpa, ansiedade ou depressão.
- Perseguição de perdas: retornar às apostas para tentar recuperar o que foi perdido.
- Mentiras e segredos: esconder de familiares e amigos a frequência e os valores envolvidos.
- Comprometimento de relações e oportunidades: perder emprego, relacionamentos ou oportunidades por causa do jogo.
- Dependência financeira de terceiros: recorrer a família, amigos ou empréstimos para cobrir dívidas geradas pelas apostas.
Segundo dados da Fiocruz/Radis (2025), 96% dos indivíduos em tratamento para transtorno do jogo apresentam pelo menos outro transtorno mental associado — sendo os mais comuns depressão, ansiedade, transtorno bipolar e uso de substâncias. O vício em bets raramente vem sozinho.
4. Como ajudar uma pessoa viciada em bets
Ajudar alguém com transtorno do jogo é uma das tarefas mais exigentes para famílias e amigos. A negação é um mecanismo central do vício: o apostador tende a minimizar o problema, acreditar que consegue parar sozinho ou sentir vergonha demais para admitir a situação. Não existe abordagem perfeita, mas há práticas que a literatura clínica indica como mais eficazes.
Passo 1 — Informe-se antes de confrontar
Entenda o que é o transtorno do jogo antes de iniciar qualquer conversa. Abordagens baseadas em julgamento moral (“você não tem caráter”) aumentam a vergonha e afastam o apostador do tratamento. O vício é uma condição clínica, não uma falha de caráter.
Passo 2 — Escolha o momento e o tom certos
Nunca confronte alguém imediatamente após uma perda grande ou em momento de crise emocional. Escolha um ambiente calmo e privado. Use linguagem de preocupação genuína (“estou preocupado com você”) em vez de acusações (“você está destruindo tudo”).
Passo 3 — Não cubra as dívidas de jogo
Pagar as dívidas geradas pelas apostas , chamado de “enabling” ou facilitação ,remove uma consequência natural que poderia motivar a busca por ajuda. Ofereça apoio emocional, mas estabeleça limites financeiros claros.
Passo 4 — Proponha ajuda profissional de forma concreta
Não basta dizer “procure ajuda”. Pesquise juntos um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) próximo, um psicólogo especializado em dependências ou o grupo de Jogadores Anônimos mais acessível. Ofereça-se para acompanhar na primeira consulta.
Passo 5 — Cuide da sua própria saúde mental
Familiares de apostadores compulsivos frequentemente desenvolvem ansiedade, depressão e síndrome de burnout do cuidador. Grupos como o Gam-Anon , criado especificamente para familiares de jogadores , oferecem suporte a quem está ao redor do apostador.
Passo 6 — Compreenda que recaídas fazem parte do processo
A recuperação do transtorno do jogo raramente é linear. Recaídas não significam fracasso , são parte do processo clínico. Manter o vínculo de apoio sem usar a recaída como argumento de culpa é fundamental para que o apostador continue no tratamento.
5. Como acabar com o vício em bets: o que a ciência diz
A pergunta que mais paralisa quem está no ciclo do jogo é: “como eu paro de uma vez?” A resposta baseada em evidências é que não existe um atalho único. O que existe são estratégias combinadas que aumentam significativamente as chances de recuperação quando aplicadas de forma consistente.
Reconhecer e nomear o problema
O primeiro passo, consensual em toda literatura clínica, é reconhecer a perda de controle. O apostador tende a acreditar que a próxima aposta resolverá tudo. Romper essa ilusão , frequentemente com a ajuda de alguém de confiança ou de um profissional , é a porta de entrada para qualquer mudança real.
Criar barreiras físicas e digitais
Reduzir o acesso às apostas diminui a probabilidade de recaída especialmente nos primeiros meses. Entre as medidas recomendadas:
- Autoexclusão nas plataformas: a Lei 14.790/2023 obriga as plataformas regulamentadas no Brasil a oferecerem ferramentas de autoexclusão , acesse e ative.
- Controle financeiro compartilhado: delegar temporariamente a gestão de contas e cartões a um familiar de confiança reduz o acesso ao dinheiro para apostas.
- Bloqueadores de aplicativos: recursos de tempo de uso do celular ajudam a bloquear o acesso a sites e aplicativos de apostas.
- Identificação de gatilhos: mapear e evitar situações, emoções ou ambientes que disparam o desejo de apostar, especialmente nas fases iniciais do tratamento.
Substituir, não apenas eliminar
O vício preenche uma função psicológica: fuga de emoções difíceis, busca de adrenalina, sentido de pertencimento. Simplesmente “parar” sem substituir essa função por algo saudável deixa um vácuo que aumenta o risco de recaída. Atividade física regular, novos vínculos sociais e hobbies com estímulo cognitivo têm evidência de suporte na literatura de dependências comportamentais.
6. Qual é o tratamento para o vício em apostas
O tratamento do transtorno do jogo é reconhecido pela psiquiatria como complexo, especialmente por envolver comorbidades frequentes. Não existem medicamentos aprovados especificamente para esse fim, mas há abordagens com sólida evidência científica.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) — o padrão-ouro
A TCC é a abordagem com maior evidência científica para o transtorno do jogo. Ela trabalha a identificação e reestruturação de pensamentos distorcidos (como a falácia do apostador e a ilusão de controle), o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento de gatilhos e a prevenção de recaídas. Sessões individuais com psicólogo especializado são o formato mais indicado, mas versões em grupo também demonstraram eficácia.
Acompanhamento psiquiátrico e farmacoterapia
Como 96% dos apostadores compulsivos apresentam comorbidade psiquiátrica, o acompanhamento com psiquiatra é frequentemente necessário. Antidepressivos do tipo ISRS (como sertralina e paroxetina), estabilizadores de humor e naltrexona , um antagonista opioide , têm mostrado benefício para redução da impulsividade e da fissura por apostar em estudos controlados. O uso é sempre individualizado e supervisionado.
Grupos de apoio mútuo
Os Jogadores Anônimos (JA) utilizam um modelo de 12 passos similar ao dos Alcoólicos Anônimos. O suporte entre pares, o compartilhamento de experiências e o senso de comunidade reduzem o isolamento — um fator de risco central no transtorno do jogo. Os JA têm reuniões gratuitas em todo o Brasil, presencialmente e online.
Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e Entrevista Motivacional
A ACT trabalha a aceitação de emoções difíceis em vez da fuga por meio do jogo. A entrevista motivacional fortalece a motivação intrínseca para a mudança. Ambas são abordagens complementares com crescente evidência no campo das dependências comportamentais, especialmente eficazes quando o apostador ainda tem ambivalência sobre o tratamento.
📋 Pro-Amjo — HC-FMUSP: O Programa Ambulatorial do Jogo do Hospital das Clínicas da USP é uma das maiores referências latino-americanas no tratamento da ludopatia e na formação de profissionais especializados. Desde 2023, os atendimentos triplicaram impulsionados pela explosão das apostas digitais.
Uma pesquisa do ImpulsoGov com 2.000 profissionais do SUS revelou que 55,2% não se sentem preparados para atender pacientes com vício em apostas — dado que reforça a importância de buscar profissionais especializados em dependências comportamentais ou CAPS-AD (Centros de Atenção Psicossocial — Álcool e Drogas) (TCU, 2025).
7. Onde buscar ajuda no Brasil
Se você ou alguém próximo está enfrentando o transtorno do jogo, existem alternativas gratuitas e acessíveis em todo o território nacional. Não espere “tocar o fundo” — quanto antes o tratamento começa, maiores as chances de recuperação.
CVV — Centro de Valorização da Vida
📞 Ligue 188 — gratuito, 24 horas, sigiloso. Também via chat em cvv.org.br. Para apoio emocional imediato, crises de ansiedade relacionadas ao jogo e ideação suicida.
Jogadores Anônimos Brasil (JA)
Grupo de autoajuda com reuniões gratuitas e sigilosas em todo o Brasil, presencialmente e online. Sem necessidade de encaminhamento ou diagnóstico formal. Site: jogadoresanonimos.com.br
CAPS — Sistema Único de Saúde (SUS)
Os Centros de Atenção Psicossocial oferecem atendimento gratuito e especializado para dependências comportamentais. O acesso pode ser feito diretamente nas unidades ou via Unidades Básicas de Saúde (UBS). Busque o CAPS-AD (Álcool e Drogas) mais próximo da sua cidade.
Disque Saúde
📞 136 — orientação sobre serviços do SUS, gratuito e sigiloso.
Pro-Amjo — Hospital das Clínicas da USP (São Paulo)
Programa Ambulatorial do Jogo , referência nacional em pesquisa e tratamento. Informações em hc.fm.usp.br.
Instituto de Apoio ao Apostador (IAA)
Foco em apoio e prevenção da ludopatia, com forte presença nas redes sociais e conteúdos de conscientização gratuitos.
⚠️ Atenção: Em situações de crise aguda, ideação suicida ou emergência psiquiátrica, procure imediatamente a UPA mais próxima ou ligue 192 (SAMU). O suicídio foi identificado como a principal causa de morte entre pessoas com transtorno do jogo, segundo a The Lancet (2025) — a gravidade do quadro exige atenção urgente.
As plataformas de apostas regulamentadas no Brasil são obrigadas pela Lei 14.790/2023 a disponibilizar ferramentas de autoexclusão, limites de depósito e links para serviços de apoio. Se você já identificou o problema, acesse as configurações da plataforma que utiliza e ative a autoexclusão enquanto busca tratamento profissional.
Referências
- Banco Central do Brasil. Gasto em bets jan–mar/2025. Secretário-executivo Rogério Lucca. bcb.gov.br
- LENAD III — UNIFESP / SENAD, 2025. Pesquisa FAPESP, 2025
- Datafolha. Pesquisa sobre apostas digitais no Brasil, 2024.
- TCU — Tribunal de Contas da União. Apostas on-line e saúde mental, 2025. portal.tcu.gov.br
- Radis / Fiocruz. Epidemia das apostas online, jul. 2025. radis.ensp.fiocruz.br
- Cremers. Prevalência do vício em apostas, jun. 2025. cremers.org.br
- The Lancet Public Health. Gambling disorder and mortality (estudo norueguês), mar. 2025. thelancet.com
- Duarte, D. E. P.; Mendonça, M. N. B. A psicologia do vício em apostas virtuais. Brazilian Journal of Health Review, 2026. brazilianjournals.com.br
- Tavares, H. et al. Gambling in Brazil: Lifetime prevalences. Psychiatry Research, 2010.
- Figueiredo, R. (APBr). Vício em apostas: sinais e tratamento. FENAE Portal, fev. 2025. fenae.org.br
- Albuquerque, D. M.; Santos, S. N. A. Vias dopaminérgicas e seus vícios. International Seven Journal, 2023. DOI: 10.56238/isevmjv1n1-004.
- Cavalcante, F. R. Em busca de mais excitação: reflexões acerca das apostas esportivas. Movimento, v.30, 2024. UFRGS
- ImpulsoGov. Pesquisa com profissionais de saúde do SUS, 2025. Via TCU.
- Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023. Regulamentação das apostas esportivas. planalto.gov.br
- OMS / CID-11. Transtorno do jogo — código 6C50. icd.who.int





