Você já parou para pensar por que tantos relacionamentos hoje parecem ter prazo de validade? Por que as pessoas trocam de parceiros com a mesma facilidade com que trocam de roupa? Vivemos uma era onde tudo flui, escorre pelos dedos e se dissolve rapidamente – inclusive o amor. E é justamente sobre isso que precisamos conversar.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman cunhou o termo “modernidade líquida” para descrever nossa época, onde nada é sólido, durável ou permanente. Tudo se tornou fluido, instável, constantemente em movimento. E o amor, talvez mais do que qualquer outra experiência humana, sofreu profundamente com essa transformação cultural.
Mas o que a psicanálise tem a dizer sobre tudo isso? Como podemos compreender essa fragilidade afetiva que marca nosso tempo? Vamos mergulhar nessa reflexão juntos.
O Que É Exatamente o Amor Líquido?
Imagine a água. Ela assume a forma do recipiente que a contém, não tem estrutura própria, escapa facilmente por qualquer fresta. Agora transponha essa imagem para os relacionamentos modernos. O amor líquido é justamente isso: relações que não criam raízes profundas, que se adaptam constantemente às conveniências momentâneas, que podem ser descartadas quando surgem os primeiros obstáculos.
Bauman, em sua obra “Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos” (2004), argumenta que vivemos em uma sociedade onde os vínculos afetivos tornaram-se frágeis demais para sustentar o peso das expectativas românticas tradicionais. Queremos a segurança do compromisso, mas sem abrir mão da liberdade individual. Desejamos intimidade, mas tememos a vulnerabilidade que ela exige.
É um paradoxo angustiante: ansiamos por conexão profunda enquanto mantemos sempre uma porta de saída aberta, um pé fora do relacionamento, preparados para partir ao menor sinal de desconforto.
A Psicanálise e a Compreensão dos Vínculos Afetivos
A psicanálise oferece ferramentas valiosas para compreendermos esse fenômeno contemporâneo. Desde Freud, sabemos que nossos relacionamentos atuais são profundamente influenciados por nossas primeiras experiências afetivas na infância. O conceito de transferência nos mostra como projetamos nos parceiros aspectos de figuras importantes do nosso passado.
Mas existe algo ainda mais fundamental aqui. A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby e posteriormente expandida por Mary Ainsworth, revela que a capacidade de formar vínculos seguros está diretamente relacionada à qualidade dos cuidados recebidos na primeira infância. Pessoas com apego inseguro – seja evitativo ou ansioso – tendem a reproduzir padrões de relacionamento marcados pela instabilidade.
Na perspectiva psicanalítica contemporânea, autores como Christopher Bollas e Adam Phillips têm explorado como a cultura do consumo infiltrou-se nas relações humanas. Passamos a tratar pessoas como objetos de consumo: quando não nos satisfazem mais, simplesmente as descartamos e buscamos novos modelos.
O psicanalista italiano Massimo Recalcati, em “A Hora da Aula” (2014), sugere que vivemos uma crise no valor da palavra empenhada. O compromisso – essa promessa de permanência que sustenta qualquer vínculo amoroso – tornou-se algo ultrapassado, quase ridículo aos olhos de muitos. Afinal, por que prometer eternidade em um mundo onde tudo muda tão rapidamente?
O Medo da Intimidade na Era Digital
As redes sociais e aplicativos de relacionamento intensificaram dramaticamente essa liquidez amorosa. Com milhares de perfis disponíveis a um deslizar de dedo, cultivamos a ilusão de escolhas infinitas. “Se esse não der certo, sempre há outro esperando”, pensamos.
A psicanálise nos ajuda a compreender que por trás dessa aparente liberdade de escolha existe, na verdade, um profundo medo da intimidade genuína. Porque intimidade real exige tempo, paciência, aceitação dos defeitos do outro e disposição para trabalhar conflitos. Exige que olhemos para nossas próprias feridas e inseguranças refletidas no espelho que o outro nos oferece.
Donald Winnicott, importante psicanalista britânico, falava sobre a capacidade de “estar só na presença do outro” como marca de maturidade emocional. No amor líquido, paradoxalmente, estamos sempre acompanhados mas profundamente sós – conectados digitalmente a centenas de pessoas, mas incapazes de verdadeira presença com alguém.
O Narcisismo Contemporâneo e Suas Consequências
Outro elemento crucial nessa discussão é o narcisismo crescente em nossa sociedade. A cultura do selfie, da autopromoção constante, da curadoria obsessiva da própria imagem nas redes sociais cultiva uma fixação no eu que dificulta o encontro genuíno com o outro.
A psicanálise sempre reconheceu o narcisismo como parte constitutiva do desenvolvimento humano. Freud distinguia entre narcisismo primário (necessário à sobrevivência psíquica) e narcisismo patológico (que impede relações maduras). O problema é que nossa cultura estimula justamente essa vertente patológica.
Christopher Lasch, em “A Cultura do Narcisismo” (1979), já alertava sobre os perigos de uma sociedade centrada no culto ao eu. Décadas depois, suas previsões se confirmaram de forma ainda mais intensa. Queremos ser amados, admirados, validados constantemente – mas estamos dispostos a oferecer o mesmo ao outro?
No amor líquido, o parceiro frequentemente serve apenas como espelho para nosso próprio narcisismo. Quando ele deixa de refletir a imagem idealizada que temos de nós mesmos, perdemos o interesse. A relação dura enquanto alimenta nossa autoestima; evapora quando exige que encaremos nossos aspectos sombrios.
A Ansiedade e o Vazio Existencial
Há também uma dimensão existencial profunda nessa questão. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard já falava sobre a angústia da liberdade: quanto mais livres somos para escolher, mais ansiosos ficamos. Vivemos paralisados diante de infinitas possibilidades, sempre temendo fazer a escolha “errada”.
A psicanálise lacaniana nos lembra que o desejo humano é fundamentalmente insaciável. Sempre queremos algo além daquilo que temos. No contexto do amor líquido, isso se traduz na fantasia de que existe alguém melhor ali na esquina, alguém que finalmente preencherá nosso vazio interno.
Mas aqui está o segredo que poucos querem ouvir: nenhum relacionamento preencherá completamente nosso vazio existencial. Porque esse vazio é constitutivo do ser humano. Aceitá-lo, em vez de negá-lo através da busca obsessiva por novas experiências amorosas, é um passo fundamental rumo à maturidade emocional.
Rollo May, importante psicólogo existencial, argumentava que o amor genuíno requer coragem – coragem de ser vulnerável, de assumir riscos, de permanecer mesmo quando é difícil. O amor líquido, ao contrário, é a expressão máxima da covardia afetiva.
Os Impactos Psicológicos do Amor Descartável
Quais são as consequências psicológicas dessa liquidez relacional? Estudos recentes em psicologia mostram aumento significativo de ansiedade, depressão e sensação de vazio entre jovens adultos. Não é coincidência que isso ocorra justamente na geração que cresceu imersa na cultura digital e no amor líquido.
A psicanálise nos ensina que a capacidade de tolerar frustração, de elaborar perdas, de atravessar conflitos é essencial à saúde mental. Mas como desenvolver essas capacidades se fugimos ao primeiro sinal de dificuldade? Como aprender a amar se tratamos relacionamentos como produtos com garantia de satisfação?
Melanie Klein, psicanalista austríaca, desenvolveu o conceito de “posição depressiva” como um estágio crucial do desenvolvimento emocional. Nele, a criança aprende a tolerar que o mesmo objeto (inicialmente a mãe) pode ser fonte tanto de satisfação quanto de frustração. Aprende a integrar aspectos bons e ruins, a aceitar a ambivalência.
No amor líquido, permanecemos fixados em uma “posição esquizo-paranóide” onde dividimos rigidamente o mundo entre bom e mau, ideal e horrível. O parceiro é perfeito até deixar de sê-lo, momento em que se torna completamente descartável.
Caminhos Possíveis: Construindo Amor Sólido em Tempos Líquidos
Então estamos condenados a relacionamentos superficiais e descartáveis? Absolutamente não. Mas a mudança exige trabalho consciente, tanto individual quanto coletivo.
Primeiro, precisamos desenvolver autoconsciência sobre nossos padrões relacionais. A psicanálise, através do processo terapêutico, oferece um espaço seguro para explorar nossas feridas afetivas, nossos medos de intimidade, nossos mecanismos de defesa que sabotam vínculos genuínos.
Segundo, devemos questionar a narrativa cultural dominante que promove a fluidez como valor supremo. Existe beleza e profundidade no compromisso, na permanência, no trabalho árduo de construir algo duradouro com outra pessoa. Relacionamentos sólidos não são prisões; são fontes de crescimento mútuo.
Terceiro, precisamos resgatar a paciência e a tolerância à frustração. O amor maduro não é aquele dos filmes românticos, repleto de paixão constante e ausência de conflitos. É aquele que sobrevive às tempestades, que se aprofunda através dos desafios, que escolhe permanecer mesmo quando seria mais fácil partir.
Erich Fromm, em sua clássica obra “A Arte de Amar” (1956), já alertava que o amor é uma arte que precisa ser cultivada, praticada, aperfeiçoada. Não é algo que simplesmente acontece; é algo que construímos ativamente, dia após dia, escolha após escolha.
Reflexão Final: O Que Realmente Queremos?
Talvez a questão mais importante seja: o que realmente queremos de nossos relacionamentos? Queremos conveniência ou profundidade? Queremos validação constante ou conexão autêntica? Queremos consumir pessoas ou construir com elas?
A psicanálise não oferece respostas prontas, mas nos convida à reflexão honesta sobre nossas motivações inconscientes. Muitas vezes, descobrimos que nosso comportamento relacional reflete medos e feridas que nem sabíamos existir.
O amor líquido é sintoma de uma cultura que privilegia a velocidade sobre a profundidade, a quantidade sobre a qualidade, o descartável sobre o durável. Resistir a essa lógica não é fácil, mas talvez seja necessário se quisermos experimentar vínculos que verdadeiramente nos transformem.
E você? Está disposto a mergulhar nas águas profundas do amor sólido, ou prefere continuar deslizando pela superfície líquida das relações descartáveis? A escolha, como sempre, é sua.
Maurício Souzá
Psicanalista Clínico, Analista Comportamental, Master Coach e Master Practitioner PNL e Numerólogo
Email: mauricioads@gmail.com
Referências Bibliográficas
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
BOWLBY, John. Apego e perda: Volume 1 – Apego. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
FROMM, Erich. A arte de amar. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1956.
FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). In: Obras Completas, Volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio. Rio de Janeiro: Imago, 1979.
MAY, Rollo. Amor e vontade. Petrópolis: Vozes, 1973.
RECALCATI, Massimo. A hora da aula: por uma erótica do ensino. São Paulo: Editora Benvirá, 2014.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.





